terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

CARNARACISMO



Brasil, aquele país da democracia racial. 
Rio de Janeiro, aquela cidade que respira samba e carnaval. 
Dezoito de fevereiro, pré carnaval, aquele sábado ensolarado.
Leblon, aquele bairro cheio de gente cult bacaninha, ricos e brancos. 
Bloco ‘Imaginou, agora amassa’, aquele que homenageou o Mestre Faísca, e que expos uma faixa bem grande em seu trio a favor do empoderamento da Maria Sapatão, distribuindo mensagens contra o preconceito. 
Mestre Faísca, aquele que ensinou uma legião de músicos.

Ritmistas da Serrinha, que também fazem parte da bateria do Império Serrano, vão para o bloco para homenagear seu Mestre.
Chegando lá, encontram os ritmistas do tal bloco. 
Aquele tipo de gente que faz black face pra homenagear o alguém.
Black face? É quando um branco pinta seu rosto com tinta preta para reforçar o esteriótipo do negro ridicularizado.
Também tinha aquele tipo de gente que se fantasia de Oxum.
Oxum? É uma entidade/deusa de religiões de matrizes africana, como a Umbanda e o Candomblé.

Eu só queria dizer pra vocês que no sábado eu vi um homem negro genial, junto com um grupo de pessoas que tiveram suas vidas mudadas pelo samba, todos sendo desrespeitados sob o argumento de uma homenagem regada a racismo! 
Eu vi o carnaval, aquela festa de muita alegria que promete misturar a cidade toda e tornar as pessoas iguais por alguns dias, a serviço do segregacionismo, causando raiva e tristeza em mim e nas pessoas que estavam comigo (Aline Maia e Heloise da Costa).

Nossa cor e nossa fé não são fantasias de carnaval! 
Sua diversão é racismo!

A branquitude não tem limites, já sabemos disso. Agora o que falta é eles saberem que estamos dispostos a colocar eles no seu devido lugar.

Eu poderia escrever por horas sobre a sensação e vocês não entenderiam quão humilhante foi presenciar aquilo... Não entenderiam quão decepcionante foi ver pessoas por quem eu tinha admiração e simpatia nos pedindo calma, pra depois relativizar as nossas reações. Eu ouvi gente dizendo que pode ser que essas pessoas não soubessem o que faziam. Fomos nitidamente desencorajadas.
Teve enfrentamento sim, teve!
"Ué, só vocês que podem falar sobre isso?" Sim! Sobre o que sentimos, só nós podemos dizer. 
Se a branquitude não quiser colar pra ouvir e respeitar o que sentimos, se não for pra apoiar dessa forma, se não tem  a humildade de entender que o que sentimos só sendo preto pra saber.. pode ralar mermão. 
Se tu acha que só porque leu sobre o racismo você sabe do que se trata, tá MUITO enganado.

Pra vocês terem uma noção, segue a letra do samba desse tal bloco. Leiam cada verso..

‘Ih é Carnaval!’, ‘Me Esquece’ que hoje eu quero imaginar
Um lindo cortejo de fé, cantando o ‘barão da ralé’
De uma semente ver crescer um Baobá
Qual um navio negreiro que um dia aporta no cais
Trazendo esperança e promessa de tempos de paz
(Vovó) Vovó Catarina, olha o neguinho com seu tabuleiro
Poeta de versos que nunca cantou
Menino vestiu-se doutor
Ganhou do tempo, na rua virou professor
O galo cantou no morro da Serrinha
Sorriso brilhou no embalo do trem
Ô baleiro bala, quem vai querer?
Tenho cocada e quindim pra vender
Quando a roda lhe chamava (ôôôô)
Capoeira começava na ladeira
Pega o couro pra esticar, esquentar com dendê
Sua fé derramar por todo o congá
Brilha canjira, alumia o terreiro
A curimba tá na mão desse nego batuqueiro
Põe aluá, aluá pro Erê, o Império do Futuro não demanda canjerê
Caminho torto é quem ensina a caminhar
Nessa vida de maré, bem melhor é marejar
São Jorge Guerreiro quem carrega seu tambor
Vem ‘milagrear’, ô ‘milagreou’
Da Boca voltou à batalha, afinal
A terceira é seu punhal
Ô Iaiá vem pro bloco chorar de alegria
Vem pra roda de samba, vem pro jongo de Maria
Deixa gira girar por Madureira, meu amor
Faiscca, Saravá, Imaginô

Imaginou??
Carnaval também é racista!

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