sexta-feira, 3 de abril de 2015

E se fosse da sua família?




Boa noite gente. A foto de hoje é de Eduardo Ferreira, um menino de dez anos de idade que foi morto com um tiro de fuzil na cabeça quando estava na porta de casa, no Complexo do Alemão.


Os policiais dizem que ele foi só mais uma vítima de uma operação contra o tráfico. A mãe diz que ele foi morto queima rouba, por um policial que confundiu um celular com uma arma que estavam na mão do menino. Eu acredito na mãe. Mas em qualquer uma das hipóteses a morte dele não se justifica. A morte por uma arma nunca se justifica! 
O Eduardo foi vítima desse Estado podre e dessa polícia falida que ao invés de proteger quem está vulnerável, extermina. 

A postagem de hoje poderia ser sobre qualquer coisa banal como de costume. Sobre o meu dia a dia, aquela baboseira ridícula de sempre..
Eu poderia dizer que hoje eu tive um dia inteiro em casa, muito agradável. Almoço em família, um tarde de estudo e uma noite de papo com o meu melhor amigo. Poderia dizer que matei a saudade dele..
Poderia dizer que ontem eu fui trabalhar cansada e resfriada, depois voltei pra republica, descansei e fui pra academia. E que no final da noite meus pais foram me buscar e viemos pra casa. Tudo bem. 
Poderia dizer só isso.. Poderia, se no meio do caminho pra casa o meu celular não me avisasse que mais uma vez tinha gente morrendo no Complexo do Alemão, e que entre essas mortes estava a desse menino. 
Meu estômago embrulhou na hora, e eu senti uma dor insuportável. Comecei a gritar, e eu fiquei inconsolável, falando a viagem inteira disso, travei debates com meus pais, mostrei fotos, surtei! Falei o tempo todo do quanto isso tá próximo de mim, próximo de nós.

Um parêntese: A Mangueira estava sob ameaça de invasão desde o final do ano passado. Na semana passada soubemos que a invasão enfim aconteceu e que muitas vidas foram desperdiçadas por isso. Como todos sabem parte da minha família reside naquele lugar. E TODA a minha família passa por angustia com isso. Ficamos com o coração na mão. Talvez por isso a minha empatia por esses casos seja ainda mais espontânea... E se eu pudesse desejar algo para as pessoas hoje eu desejaria empatia. Mais empatia, por favor!

Tente, mesmo sabendo que é em vão, se colocar no lugar da mãe do Eduardo. Tente, mesmo sabendo que é impossível dimensionar, imaginar o que sentiu Terezinha e quem convivia com esse menino.
Imagina como será a páscoa dessas pessoas. Não haverá a páscoa de ressurreição no Alemão!
E só de me aproximar dessas possibilidades a dor não estava cabendo em mim! Era só nisso que eu conseguia pensar! Eu xinguei a PM, com toda minha força. Matar criança! Matar preto! Matar favelado!
VTNC!! É um câncer essa maldição. 
Eu cheguei em casa e minha vó percebeu na hora.. 'Ué, sempre chega fazendo farra. Pensei ate que você não tinha vindo, chegou sem barulho nenhum'. Eu fiquei muito mal. Dormi mal, eu não consegui comer direito, eu chorei de dor.. Era uma criança cara! UMA CRIANÇA. Com uma vida inteira pela frente. Que foi morta na porta de casa, as vistas de sua mãe. 
Chega. Eu não aguento mais!

O Eduardo poderia ser qualquer menino da minha família, poderia ser meu afilhado, meu primo, poderia ser até eu... O Eduardo poderia ser e é qualquer negro e qualquer pobre que mora em qualquer favela dessa cidade segregada. 
Só não poderia ser uma das crianças do Leblon, como aquelas que são alunos da escola em que eu trabalho. Não seria rico, não seria filho da classe média, muito menos da classe alta. Jamais.
Será que é mesmo tão difícil de entender que NINGUÉM tem o direito de matar outras pessoas. Que mesmo que esse menino fosse alguém envolvido com o tráfico. Ele é uma vida! Não tem que ser morto!
Bandidos não tem o direito de matarem policiais, nem moradores. Policiais não tem o direito de matarem moradores nem bandidos. Chega de justificar mortes. Ninguém tem o direito de tirar a vida de ninguém. Tá tudo errado!
É preciso entender que tudo isso toca em questões maiores do que as opiniões. Toca na política de drogas, segurança pública, desarmamento... A polícia protege quem? E a quem ela deveria proteger?
A polícia é necessária em nossa sociedade, sem duvidas. Desnecessário é a morte pela pobreza.
A polícia precisa ser desmilitarizada. Aonde isso vai parar?
A vida de um policial vale tanto quanto a desse menino, e tantos outros.
São vidas dentro de um contexto que ‘vencem’, e por isso perdem, pela morte.
A morte dele me incomoda tanto quanto a morte de tantos PMs que sobem os morros (pra matar) e não descem por que são mortos. Quem fala sobre isso? Quem ganha com isso?
Isso tem que acabar!

Claro que eu fui pras redes sociais.. Claro que eu travei debates que quase viraram brigas. Eu não aguento!
Já disse mil vezes e vou repetir. Dizer pra eu pensar 'se fosse com alguém da minha família a ser morto ou roubado por um menor de idade' não faz com que eu mude de opinião! Já foi com pessoas da minha família e já foi comigo. Eu já fui assaltada por uma criança e mesmo assim não acho que o meu celular vale a liberdade dele. Eu continuo defendendo que a educação e o investimento são alternativas melhores que a prisão. 
E se vocês gostam tanto desse jogo do 'se fosse com você' e se fosse seu irmão esse menino de dez anos? E se seu pai fosse o Amarildo, trabalhador 'desaparecido' (leia-se morto por policiais da UPP)? E se fosse com vocês?
 
Tudo isso se relaciona a esse assunto tão em voga agora, da redução da maioridade penal (e como sempre o racismo). Embora muitas pessoas não entendam, tem TUDO a ver! 
A quem a lei da maioridade penal se direciona? Quem são os adolescentes que serão presos através dela? Será o boyzinho de 16 anos que cheira cocaína todos final de semana nas festinhas tops da zona sul? Claro que não! A lei da maioridade penal irá prender jovens negros e pobres que o sistema exclui. Como o perfil desse menino que foi morto.
Os jovens pobres e periféricos estão sendo exterminados através de leis como essa. É mais fácil dar cadeia aos jovens favelados que dar educação e garantir os direitos deles. que prisão é essa que querem colocar nossos jovens? É boa? Os fará melhores? Os fará se redimir e não cometer mais erros? Por favor, sabemos todos que nosso sistema penitenciário é podre!
O cara não tem escola, não tem comida, não tem se quer saneamento básico, não tem dignidade. Mas tem cadeia!
Como educadora/pedagoga/professora entendo que reduzir a maioridade será desistir ainda mais cedo de nossos jovens e crianças. Será atestar a nossa incompetência em lidar com as questões da juventude, da infância e da violência em sua amplitude. Será dizer: não, não acreditamos que a educação pode mudar o ser humano.
E antes que comecem a deturpação eu já digo que não defendo bandido, eu defendo pessoas.

Hoje à noite a Rede Globo, através do Jornal Nacional, dedicou boa parte de seu tempo no horário nobre cobrindo a morte do filho do político Alckmin, que foi uma fatalidade. Acidente de avião é uma fatalidade. ISSO SIM FOI FATALIDADE!
A morte de Eduardo Ferreira também foi noticiada, mas com a delimitação que normalmente se dedica a normalidade da morte de pobres. Diferente do que querem que a gente entenda, não, não foi fatalidade! E enquanto a imprensa e mais um monte de gente banalizar a morte de uma criança de dez anos como uma 'infeliz fatalidade' a tendência é só piorar.

E vocês que estão querendo redução da maioridade penal?!
VÃO SE FERRAR!!
Não precisam reduzir não, nossas crianças, as pobres e negras, já estão sendo mortas antes mesmo de serem criminalizadas. 
É contra a descriminalização do aborto, mas é a favor da pena de morte que exerce o Estado, que nos mata por sermos pobres. Nas favelas morremos no ventre. E quem atira é o Estado!
À vocês que urram "Diminuição da maioridade penal!", "Pena de morte!" e "Intervenção militar!", aconselho que experimentem uma semana no Alemão e vocês terão seu Estado perfeito.

Sobre esse projeto de paz que estamos construindo, gostaria muitíssimo que vocês vissem isso:
Eu não sou da paz!

Por hoje é só.
Boa noite.

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